perplexos

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Um SPA para os perplexos.

Segunda-feira, Junho 30
?

O novo modelo do Blogger está indo mesmo para o saco. Agora pululam os pontos de interrogação. Mas como a vida é um ponto de interrogação, o leitor que se vire e leia o post anterior como ele quiser. Afinal de contas, o que é um blog senão um lugar (isso mesmo, prof. Pasquale, um lugar - será que os gramáticos não entendem metáforas?) em que nada deve ser dito em definitivo? Tempus regit actum, este é o princípio da coisa.


Martim | 11:59 PM |

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MEU ASSUNTO É O FRACASSO, JÁ DIZIA O SAMUCA


FRACASSAR É PRECISO: Uma mulher aborda-me na rua e pergunta-me se sou seu filho. Olho-a por uns segundos e sigo em frente. Já de costas, ouço-a repetir a pergunta. Continuo. Perplexo. Toda a cidade tem os seus loucos, os seus disturbados, os seus perdedores. Eu não quero fantasiar: a loucura é caso clínico e não traz glória. Mas o fracasso, amigos, o fracasso, a derrota humana têm um esplendor profundo e imaterial que eu admiro. Admiro intensamente os que fracassam, os que perdem. O fracasso é infinitamente preferível à vitória. Quem perde, ganha uma angústia metafísica, uma compaixão existencial. Merece respeito. E merece ainda mais respeito se perde de propósito, se é um perdedor nato e intencional. Os vencedores aborrecem-me, escandalizam-me, oprimem-me. Não exalam uma única vergonha, um único constrangimento, uma única incerteza. E são cinicamente inverossímeis no seu brilho estudado e elefantino. Meias da cor dos sapatos, sapatos da cor das calças, cuecas da cor da gravata. Uma voz segura, um perfil de estátua. Os vencedores sabem o que dizer, o que fazer, o que esperar. E permanecem sempre os mesmos, aconteça o que acontecer. Se tivesse coragem, digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização. Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente e muito mais conservador do que ganhar. É a única utopia conservadora em que eu acredito: a utopia do fracasso. Tenho há muito tempo esta certeza e não me peçam para explicar: o mundo será melhor no dia em que for universalmente feito de fracassados.

E Pedro Lomba, um dos sobreviventes da Coluna Infame, resume perfeitamente o que é a nobreza da perda, o que é ser um beautiful loser.

E, claro, não podemos nos esquecer do outro Pedro, o Mexia, também da Coluna, que tem seu Dicionário do Diabo.

Leitura obrigatória, caros perplexos, leitura obrigatória.


Martim | 6:26 PM |

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Sexta-feira, Junho 27


Martim | 9:25 PM |

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Quinta-feira, Junho 12
A BELEZA DOS DIAS QUE SE FORAM


THE BEAUTY OF THE DAYS GONE BY

(Van Morrison)

When I recall just how it felt
When I went walking down by the take
My soul was free, my heart awake
When I walked down into the town

The mountain air was fresh and clear
The sun was up behind the hill
It felt so good to be alive
On that morning in spring

I want to sing this song for you
I want to lift your spirits high
And in my soul I want to feel
The beauty of the days gone by

The beauty of the days gone by
It brings a longing to my soul
To contemplate my own true self
And keep me young as I grow old

The beauty of the days gone by
The music that we used to play
So lift your glass and raise it high
To the beauty of the days gone by

I'll sing it from the mountain top
Down to the valley down below
Because my cup doth overflow
With the beauty of the days gone by

The mountain glen
Where we used to roam
The gardens there
By the railroad track
Oh my memory it does not lie
Of the beauty of the days gone by

The beauty of the days gone by
It brings a longing to my soul
To contemplate my own true self
And keep me young as I grow old

And keep me young as I grow old
And keep me young as I grow old
And keep me young as I grow old

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Afinal de contas, o que nos leva a continuar nesta vida, apesar das derrotas, das perdas e das poucas vitórias? O que é este impulso verdadadeiramente suicida de ir até o fim da linha, de ver o que está por trás do inevitável abismo, sabendo que teremos mais perdas, mais derrotas e quase nenhuma vitória? C.S. Lewis escreveu em seu livro "Surprised by Joy" que, quando crianças, experimentamos uma sensação desconhecida, que nos preenche por toda vida, apesar de sua brevidade. Ele acreditava que seu nome era nada menos que "alegria" e que, durante os anos de maturidade, conforme a marcha do tempo lhe parecia inexorável, sua principal motivação era captar novamente esse pequeno e afiado brilho que o acompanhara. Lewis sabia que esta "alegria" podia ser dolorosa (e era), mas que era a única que valia a pena persegui-la.

Em seu último álbum, "Down the Road" (2001), Van Morrison criou outra pérola do lirismo irlandês: a canção "The Beauty of the Days Gone By". Embalado em um ritmo inspirado nas canções folclóricas e com um naipe de cordas de fazer chorar qualquer sujeito metido a Jonh Wayne, "The Beauty" é quase um poema musical em homenagem ao passado e à memória. O eu-lírico parece ser um homem que sofreu tanto, que passou por aquelas experiências que ninguém gostaria de passar, mas que está vivo e sabe muito bem a alegria que significa isso. O que o mantém vivo é a busca pela mesma alegria que C. S. Lewis também perseguia; sua maior arma nesta guerra é a sua memória que, como o próprio Van Morrison fala, "it does not lie". E o resultado é a superação de todas as coisas ruins que aconteceram no passado porque, algum dia, teremos de nos libertar dele, e perceber a beleza oculta que as sombras queriam esconder; perceber que, apesar de toda a lição de trevas, a vida não é só isso e que a esperança é algo bom para se guardar.

Entretanto, voltando à pergunta que nos motivou no início deste apontamento, o que nos leva a enfrentar o fim, apesar de tudo, apesar da impossibilidade de entender o outro, de fazê-lo feliz? E o Tempo - o que fazer com este monstro que nos ensina a agarrar cada instante passageiro como se fosse uma parte do eterno? Seria a alegria que Lewis tanto deseja rever, a mesma alegria de seus tempos de criança? Ou a certeza de que os dias que já se foram também têm uma beleza peculiar? Não podemos nos esquecer, neste caso, do famoso verso de Rilke: a beleza é o início do Terror, devido à sua rara intensidade e, portanto, à crueldade que nos espera. Ah, "alegria", "beleza", "memória", "terror" - palavras, palavras, palavras, já dizia Hamlet, todas querendo apreender o significado de algo que está além das nossas possibilidades, de nossas pífias intenções de uma busca pela felicidade nesta terra... O que nos motiva ir até o fim, amiguinhos, o que nos leva a enfrentar o abismo é a procura para encontrar o que se esconde atrás destas palavras. Mas o que fazer com esta casca precária de vida se elas são a única coisa que nos resta - junto com o Tempo, no seu misterioso desdobramento que o homem ainda não conseguiu decifrar, com sua multidão de causas que apelidamos de "acaso", que nos ajuda, de uma forma estranha, a suportar a saudade em nossa alma de um mundo onde não nos sentimos deslocados, onde passado, presente e futuro são uma perpétua possibilidade e onde a única coisa que esperamos é nos manter jovens de espírito, mesmo com a velhice do corpo acenando no meio do caminho?


Martim | 6:14 AM |

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Quarta-feira, Junho 11
O ESTRANHAMENTO DO MUNDO

Cada um tem sua visão do Paraíso, isso é inegável. Os católicos têm o seu Paraíso, os muçulmanos também, os judeus idem. E, obviamente, os escritores também possuem seu Paraíso particular. Entretanto, isso não é por acaso: o escritor é um exilado por natureza, ou melhor, um sujeito que acumula todos os exílios do mundo, conscientes ou inconscientes. Ficar estranho a este mundo é a profissão do escritor: sem isso, ele não seria nada, absolutamente nada ( e é talvez seja por causa disso que é triste ver um escritor abraçar o poder institucionalizado).

Assim, o Paraíso de um escritor pode ser considerado o lugar que ele perdeu em algum momento de sua vida (Proust já dizia: "Os verdadeiros paraísos são aqueles que perdemos"). Acredito que este seja o caso de
Alexandre Soares Silva e seu primeiro romance "A Coisa Não-Deus", que se passa, na maioria de suas páginas, num Paraíso peculiar e divertido, onde Grace Kelly pode ser sua vizinha, anjos são materialistas e têm extremo bom gosto, Evelyn Waugh pode ser seu parceiro de almoço e Mario de Sá Carneiro será o cronista do desaparecimento da sua alma.

Sim, o Paraíso de Alexandre Soares é divertido, mas é também triste, muito triste, porque sabemos, de alguma forma, que não é possível a sua existência. Isso é uma proeza que só o poder da literatura realiza. E o que torna o livro mais triste ainda é a figura central sobre o qual o livro gira em torno: Julio Dapunt. Por quê? Por um simples motivo: Dapunt não tem a alma imortal. Ou seja, quando morrer, vai morrer mesmo. Para este sujeito, imortalidade é uma piada - e de muito mal gosto.

Para piorar, Dapunt é alguém que não deixará saudades neste mundo. Dizer que é um beautiful loser seria um elogio; ele é um verdadeiro nobody, o tipo que ninguém percebe na faculdade, que ninguém lembra o nome - apenas é lembrado por ser um "cara legal", o que é igual a ter um atestado de óbito prévio. Sua maior ambição é deixar uma marca neste mundo, mas mal consegue impressionar a moça bonitinha que lhe dá uma carona. Em contrapartida, seu drama comove todo o Paraíso.

E é este Paraíso - material, hedonista, sedutor, e, em hipótese nenhuma, corrompido e corruptor - que Alexandre Soares mostra o poder de sua imaginação. São nas descrições de seus rituais e nos de seus habitantes que Soares mostra ser um discípulo tupiniquim de C. S. Lewis e G.K. Chesterton. Há algo de alucinante em seu Paraíso, para não dizer lisérgico. Mas aquele sentimento de perda continua lá, em cada linha e em cada palavra: o sentimento de que este Paraíso só é possível porque o perdemos em alguma parte de nossa alma e em nosso coração.

Esta tristeza, adocicada com ironia (e não cinismo, como escreveu Paulo Polzonoff, uma vez que o cinismo implica em uma amargura perante a vida que "A Coisa Não-Deus" não demonstra), fica acentuada com a pena que Julio Dapunt nos dá. Uma pena misteriosa, diga-se de passagem, e por um simples motivo: terminamos o livro sem saber realmente quem foi Julio Dapunt. Ele vive, morre, passa uns tempos finais no Paraíso e, quando desaparece para sempre, cria-se um monumento a ele, transformando-o de "A Coisa Não-Deus" para o único deus que fez o movimento impossível (aqui, ao descrever o raciocínio de um anjo maluco chamado Pul, Alexandre Soares dá uma piscadela às teorias que chutam os fatos para longe e se preocupam com os absurdos que saem da mente de seus criadores). Para quem não era ninguém, tornar-se o Absoluto por uma mera deformação de lógica não é apenas uma vitória: é principalmente uma prova de quantos mistérios - irônicos ou não - a vida nos guarda.

"A Coisa Não-Deus" revela em Alexandre Soares um tipo de escritor que falta no Brasil: aquele que medita sobre assuntos sérios sem cair no perigo de uma densidade que pode se revelar pedante. Alexandre Soares não é e não quer ser Dostoiévski; por aqui, já temos um Machado, um Guimarães, um Osman Lins, um Lúcio Cardoso, um Bruno Tolentino. Não se trata de dizer se é inferior ou superior; trata-se apenas de ter uma literatura que crie um público que comece a apreciar um tipo de literatura séria, mas também divertida (e não uma pseudo-literatura que quer ser séria e nunca foi divertida, como são os exemplos de Rubem Fonseca e Paulo Coelho) e, então, partir para aventuras literárias mais ousadas. Neste aspecto, Alexandre Soares tem similiaridades com o Antonio Fernando Borges de "Brás, Quincas e Cia.", no qual a estrutura labiríntica e o estilo machadiano deste último escondem camadas de uma preocupação urgente - a perda da individualidade em um mundo que caminha para o coletivismo econômico e ideológico. Ambos os autores usam estruturas sutilmente intrincadas, cheias de digressões e flash-backs, sempre com pitadas de humor e em um estilo claro na escrita (aliás, este é o único senão em "A Coisa Não-Deus": em alguns momentos, dá-se a impressão de que o estilo não foi muito bem cuidado e há passagens que denunciam a precocidade do escritor, com piadas e expressões que deveriam ser engraçadas, mas ficam só na intenção); mas, se Alexandre Soares prefere a ironia como meio de questionar o estranhamento do mundo, Antonio Fernando cai no pessimismo machadiano, mesmo usando-o como um aviso para que o leitor não siga o mesmo caminho.

A literatura brasileira precisa de autores como Alexandre Soares e Antonio Fernando Borges. De certa forma, eles são mais importantes, no mundo cultural, do que a obra de um Bruno Tolentino porque preparam leitores futuros para enfrentar as florestas quase impenetráveis de densidades poéticas deste último. E se há um livro que cumpre muito bem esta função é "A Coisa Não-Deus", com sua tristeza sutil que nos faz lembrar sempre de que este mundo é, de fato, um bom lugar para se viver, mas definitivamente não é o único.



Martim | 7:53 AM |

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Terça-feira, Junho 10
LUTO NA BLOGESFERA

Adeus,
Coluna Infame, um dos melhores blogs da Internet escritos em língua portuguesa.

Martim | 4:36 PM |

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Domingo, Junho 1
O TREM EXPRESSO DA SOLIDÃO

FAST TRAIN

(Van Morrison)

Well you've been on a fast train and it's going off the rails
And you can't come back can't come back together again
And you start breaking down
In the pouring rain
Well you've been on a fast train

When your lover has gone away don't it make you feet so sad
And you go on a journey way into the land
And you start breaking down
'Cos you're under the strain
And you jump on a fast train

You had to go on the lam you stepped into no-man's land
Ain't nobody here on your waveband
Ain't nobody gonna give you a helping hand
And you start breaking down
And just go into the sound
When you hear that fast train

And you keep moving on to the sound of the wheels
And deep inside your heart you really know oh, just how it feels
And you start breaking down and go into the pain
Keep on moving on a fast train

You're way over the line next thing you're out of your mind
And you're out of your depth in through the window she crept
Oh there's nowhere to go in the sleet and the snow
Just keep on moving on a fast train

You had to go on the lam stepping in no-man's land
Ain't nobody here on your waveband
Nobody even gonna lend you a helping hand
Oh and you're so alone can you really make it on your own
Keep on moving on a fast train

Oh going nowhere, except on a fast train
Oh trying to get away from the past
Oh keep on moving keep on moving on a fast train
Going nowhere, across the desert sand, through the barren waste
On a fast train going nowhere
On a fast train going nowhere


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Atualmente, escuto duas versões desta canção: a do próprio Van Morrison e a de Solomon Burke. Para quem não sabe, Morrison não é parente de Jim Morrison, o cantor que achava que o mundo era seu umbigo dos The Doors, apesar de ambos serem contemporâneos, com a diferença de que Jim morreu e Van sobreviveu o suficiente para contar sua história, como faz no seu último álbum "Down the Road" (2001); e Solomon Burke é o grande cantor de soul music, um homem com uma voz fantástica e ultimamente conhecido em nossa geração como o responsável por "Can´t Get You Off My Mind", canção que Rob Fleming, o mais famoso personagem de Nick Hornby, elege como a melhor que já escutou em sua pobre vida.

Por que minha obsessão em duas versões de uma mesma canção? Pelo simples motivo de que "Fast Train" fala de um fato que, mais cedo ou mais tarde, teremos de enfrentar: a inevitabilidade da solidão. Não há jeito, amiguinhos: a experiência da solidão, mesmo quando estamos acompanhados de amigos, parentes ou namoradas, é, talvez, a única certeza neste mundo (a morte é, se for vista neste aspecto, a experiência mais radical de solidão). "Fast Train" conta, em versos impressionistas (especialidade de Van Morrison - ver "Astral Weeks", seu primeiro álbum), e com nítida influência do blues, a história de uma mulher (pode ser que seja também um homem, apesar do verso, numa mudança surpreendente de foco narrativo, "and through the window she crept") que está abandonada pelo seu amante e se vê sem nenhuma estrutura para agüentar o tranco. Ela é a mais nova vítima daquilo que chamo de "A Bigorna". E ninguém vai ajudá-la nesta situação; ela se encontra em um trem expresso, no meio da chuva e o som dos trilhos rima com o som da sua dor. Para quem acha que canções de rock não podem atingir certas profundezas de espírito, "Fast Train" é a prova ao contrário. O interessante é que, devido à letra, a canção dá oportunidade para duas interpretações sutilmente diferentes. A de Van Morrison é inegavelmente mais pessimista, acentuando que a moça está sozinha e ninguém vai oferecê-la uma mão amiga; seria por que o irlandês é um cético por excelência, mesmo quando sua felicidade é embebida em doses de pints e nostalgia de tempos melhores? Já a de Solomon Burke aposta em um otimismo revelador: quando o coro repete as palavras "keep on moving on a fast train", é como se a moça pudesse continuar, mesmo embalada no trem expresso da solidão. Qual seria a melhor versão? Não ouso a este desafio, mas é marcante ver dois artistas mostrando visões diferentes e complementares deste medo que aterroriza o ser humano: a possibilidade de que tudo é um mal-entendido, de que nada cumpre aquilo que promete e que, no fim, estamos condenados à absoluta solidão.


Martim | 10:44 AM |

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SURPRISE, SURPRISE, como diria aquele velho amigo do Capitão Von Trapp que agora me fugiu o nome

Milagres acontecem, caros perplexos, e, hoje, no domingo, dominus day, o dia do Senhor, aconteceu um , que é o fato de que o Mamais!, o suplemento irritante e supostamente cultural da Folha acertou em cheio, publicando
um ensaio very wunderbar de Thomas Pynchon, o mestre da paranóia, sobre um dos grandes romances paranóicos, o "1984", de George Orwell, um dos poucos esquerdistas que respeito por um simples motivo - sabia que havia algo de estranho quando seus colegas começaram a apoiar genocídios como meio de vida. Reparem que, neste ensaio, Pynchon faz o que comentei no meu post sobre Beckett e Proust: fala sobre a obra de alguém, mas para afirmar os fundamentos de sua própria obra. Isto significa que Pynchon, o maior escritor vivo da atualidade (Philip Roth é o segundo maior, mas fica bem atrás), o único com uma obra que deveria ser lida por nossos aprendizes a escritores para aprenderem a fazer pirâmides e não biscoitos, discutirá sobre - yes! yes! yes! - paranóia, manipulação de informação, decadência humana e futuro sombrio. Enfim, meus temas prediletos. Sugiro leitura imediata, seja do texto ou da obra de Pynchon, mas também não posso deixar de me perguntar: Quando lançarão "Mason & Dixon" aqui no Bananão?

Martim | 10:35 AM |

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Sexta-feira, Maio 30
PROUST E BECKETT

O interessante ao terminar a leitura de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, é, depois de ficar horas a fio pensando sobre a genialidade do romance em sua estrutura, estilo e narrativa, ler o que outros sujeitos escreveram sobre o livro. No caso, a cereja do bolo é o ensaio que
Samuel Beckett (o velho e bom Samuca, como diria Paulo Salles) escreveu em início de carreira sobre Proust. É um daqueles textos em que se observa como um grande autor iniciante utiliza-se de um grande autor já consagrado (quando Beckett escreveu o ensaio, em 1931, Proust morrera há nove anos) para trampolim de seu projeto poético. E que projeto poético! Beckett é mais pessimista do que qualquer Nietszche de cozinha; seu único problema é que ele se aproveita de um neurastênico melancólico para reafirmar que toda condição humana está fadada ao fracasso. Proust nunca escreveria frases do tipo: "O Hábito é o lastro que acorrenta o cão a seu lastro" ou "Somos incapazes de compreender ou incapazes de sermos compreendidos", frases que martelam em nossas mentes por um bom tempo (e Tempo é uma palavra-chave para entender a obra destes dois senhores). Na realidade, o escritor francês falaria mais ou menos a mesma coisa, só que desta maneira: "Gilberte era como um desses países em que não se podia fazer alianças diplomáticas, devido à inconstância de seus governos" ou "As pessoas que nos atormentam são como degraus de ascese para as divindades superiores". Aqui, o tempo está embutido numa seqüência de símiles e analogias imperceptíveis, enquanto que em Beckett a solidão do artista, em toda sua radicalidade, se expressa em um estilo duro, afiado, sem preocupações com o bom gosto. Como se não bastasse, o ensaio de Beckett sobre Proust é o que todo grande ensaio deveria ser: uma reflexão sobre uma obra em que o importante é a preparação de uma obra futura e não a mera exposição de técnicas narrativas e idéias conceituais que não chegam a lugar nenhum. Querem provar um futuro grande escritor? Leiam seus ensaios de madureza: se eles insinuam algo a mais é porque, com alguma sorte, este sujeito continuará a realizar uma obra que poucos terão a coragem de destruir. Foi assim com Proust (em seus ensaios contra Sainte-Beuve) e foi assim com Beckett. Enfim, nada como o velho lema: ora et labora.

Martim | 10:02 AM |

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Quarta-feira, Maio 28
Martim,

Resolvi escrever aqui, em vez de postar na janela de comentários, afinal, um dos objetivos deste blog, quando a Inês o criou, era a troca de idéias entre os membros.

Pois bem, só tenho algumas pequenas observações quanto a "Matrix Reloaded" e o seu post. A propósito, o livro do Baudrillard se chama "Simulacro e Simulação".

Realmente, o filme é recheado do que se poderia chamar de "causalismo". Todos os personagens que habitam a Matrix acreditam piamente que tudo que fazem é para cumprir a função que lhes foi designada. E, aparentemente, eles estão certos, já que sua função é mesmo levar Neo ao Arquiteto e, assim, manter o mecanismo dos Predestinados funcionando como sempre.

Mas o livre-arbítrio insiste em se manifestar, bem como o acaso. O primeiro, no próprio jeito de ser do Oráculo, que está sempre instigando Neo a pensar duas vezes (ainda que ela tente impôr a ele a inevitabilidade). O segundo, na figura do agente Smith, fator de imprevisibilidade criado pelo próprio Neo e que, de algum modo, parece conseguir se tranferir para a realidade, no início do filme, quando "entra" no personagem que corta a própria mão com uma faca. O acaso, logicamente, não é uma grande vantagem filosófica em favor dos diretores (visto que é um traço típico da filosofia pós-muderninha), mas já é melhor que a tal cadeia de causas e efeitos exaustivamente mencionada durante todo o filme.

E você disse: "Em Platão, o mito da caverna é o símbolo da periagoge, da conversão do mundo de sombras para o mundo da luz e o início da busca dentro da tensão entre os polos da realidade divina e humana. Neo não vai para o mundo da luz; ele caminha para dentro do mundo das sombras, acreditando que nelas está a verdadeira realidade."

Não consegui ver tão facilmente essa imersão de Neo nas sombras. O que vi foi que a cena (por sinal, uma lamentável apologia da raça negra, diga-se de passagem) da orgia em Zion termina com Neo "brochando" de preocupação com a vida de Trinity, algo bastante significativo. Além disso, você pegou o exemplo de que Neo não aceita a morte, para dizer que o filme ensina as pessoas a não aceitarem as coisas como elas são, isto é, com todas as suas limitações. Mas o que eu vi durante todo o filme foi um embate em que a maioria defende que se deve aceitar o destino (e que cabe a cada um cumprir o que lhe foi destinado e aceitar as coisas como elas são até na hora de "revolucionar") e uma minoria (quase que apenas Neo) que não aceita isso muito bem. E no final, Morpheus até diz que tinha um sonho e agora não tem mais. O sonho era justamente o de que tudo estava predestinado a acontecer da forma como ele achava que aconteceria. Este sonho é quebrado.

O fato é que, se você interpretar o filme de um ponto de vista TOTALMENTE simbólico (como fez o próprio Baudrillard), muito do que você disse está mesmo certo. E talvez os diretores queiram mesmo que tudo seja interpretado assim (nunca saberemos ao certo, já que eles não dão entrevistas), em que pese a declaração de Cornel West de que o filme retrata fielmente os aspectos centrais de sua "filosofia". Mas talvez não seja prudente tomar um filme como esse tão simbolicamente. Eu prefiro aceitar algumas coisas apenas como metáforas e as outras, nem isso. E tenho um motivo para essa preferência: este é um filme de ficção, e nele existem dois mundos, "de fato". Um deles é real e o outro, virtual. Os filmes de ficção, claro, têm seu aspecto metafórico e até simbólico. Mas também têm um aspecto um pouco mais simples e óbvio, que é o de lançar uma pergunta: "e se o mundo virasse isso"? "E se o mundo fosse assim?" Então, eu acho que precisamos prestar atenção em outros aspectos, que são questionamentos sobre como o homem agiria se fosse colocado diante desse problema fictício da Matrix, fruto de uma possível tragédia tecnológica. Temos que fazer o que fazemos com os filmes de ficção: supor que o mundo um dia possa ser exatamente (e não simbolicamente, apenas) como no filme. Mesmo porque o mais provável é que os diretores nem tenham esse estofo intelectual todo, para colocar, propositadamente, mensagens gnósticas ao longo do filme. Acho provável que estas sejam mais um reflexo inconsciente da mentalidade do homem contemporâneo do que um propósito direto.

Enfim, acho que você está supervalorizando a filosofia do filme. Ela consiste em pouco mais que uma crítica à tecnologia e ao cientificismo, povoada de apologias multiculturalistas e nomes de efeito pescados do Egito Antigo e do esoterismo, como "Nabucodonosor", "Merovingian", "Gnosis", etc etc. A sua leitura voegeliniana de filmes como produtos culturais que apresentem ou não elementos gnósticos é muito interessante, mas às vezes redutora, se me permite observar. Os filmes são, mais que tratados de filosofia, produtos que refletem a cultura de uma época. Portanto, a menos que sejam produzidos por "outsiders" que questionem toda uma era ou século (como é o caso de "Sunshine", por exemplo), sempre trarão sua parcela de elementos gnósticos, dada a limitação das críticas a aspectos de uma época (como a crítica à tecnologia, no caso de Matrix). Se a pessoa que critica a humanidade ainda está presa ao seu "tempo" e ao espaço, as críticas dela são mesmo incompletas. Observar isso é necessário, mas não esgota o esforço de reflexão de uma pessoa que pretenda criticar um filme, mesmo porque se pode observar isso sobre quase todos os filmes, pois diretores de cinema, em geral, não são gênios filosóficos. Eu arriscaria dizer que "Matrix Reloaded" é um bom filme, no que diz respeito às críticas e questionamentos, mas que a solução não é Cornel West, e nisso o filme erra mesmo. Se bem que, até para dizer isso com certeza, é preciso ver a continuação. Definitivamente, o primeiro filme é melhor, pois terminava onde os filmes devem terminar: no ponto em que a solução de todos os problemas ainda não foi dada, pois ela não existe. Mesmo assim, com respeito a isso, ainda podemos encontrar muitas coisas interessantes nessa continuação, como, por exemplo, a observação sobre a imperfeição inerente ao ser humano e o modo como a tecnologia tenta lidar com ela. Está certo que nada disso adianta se, no próximo filme, os diretores vierem com a apologia do coletivo como única solução para essa imperfeição humana! Veremos...


Evandro | 12:01 PM |

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Sábado, Maio 24
MATRIX DESTROYED

Caros perplexos, qualquer um que tenha responsabilidade sobre seus próprios atos e tenha um pouco de caridade é obrigado - é isso mesmo, a palavra certa é obrigado - a contar aos próximos a loucura diabólica que é "Matrix Reloaded". Se o primeiro filme, apesar da violência de videogame, apesar do pensamento epicurista e cartesianista em dividir o real em duas partes estanques, ainda podia-se acreditar que tudo não passava de mero entertainment, agora o negócio é outro. Em "Reloaded", as intenções dos irmãos Wachowski estão claras e mostram que são os agentes favoritos da Revolução Gramsciana. O problema é que eles usam e abusam de mensagens subliminares e de estímulos psicossensoriais na estrutura dramatúrgica que impedem o espectador de raciocinar corretamente. Mas, como não sou bobo, vou tentar explicar aos poucos leitores deste blog (hurray!) quais são as perversidades que a saga de Matrix esconde. Dois avisos: sugiro ler este post somente aqueles que já viram os dois filmes; e sugiro uma leitura ao blog
Politicamente Incorreto, que já esboçou algumas das idéias que tentarei desenvolver aqui. Então, tomem três Engovs e vamos lá:

1. A cosmogonia de "Matrix", por assim dizer, é epicurista. Ao contrário dos átomos, temos os bits e bytes de um programa de computador. Os deuses existem, mas eles estão distantes e não são muito bonzinhos, porque não estariam escravizando os poucos humanos que restam. E a ética mostrada em Zion não esconde suas raízes epicuristas: antes da luta, da guerra, vamos fazer uma rave, dar uma trepadinha e a morte é apenas uma ilusão que pode ser consertada pelo Predestinado.

2. O processo de iniciação de Neo - o hacker que é encontrado por Morpheus - é uma inversão da iniciação espiritual que gurus como Guénon, Coomarswamy e Burckhardt dissecaram com precisão em suas obras. A iniciação de Neo não é um processo de libertação dos véus da ilusão que cobrem a realidade; é um encolhimento ao espírito imanente, no melhor estilo Hegel. Sua revelação também não é budista - que, apesar dos pesares, havia um grande componente do Espírito ali, mesmo que ele estivesse aprisionado em ciclos cosmológicos -, mas sim cartesianista, a pura razão do cogito separando em espaços distintos o que deveria ser o real e o que é virtual. Não há tensão entre os dois polos; há apenas imersão em uma das realidades. Os Wachowski adoram dizer que foram inspirados por Baudrillard - eles citam um de seus livros no filme, "Simulacra e Simulacros" -, mas o próprio Baudrillard (um louco completo que prefere o niilismo e o terrorismo ao invés de enfrentar o sentido da vida) negou sua influência, admitindo - vejam só! - que o filme hipostava os lados da realidade, não existindo a fusão entre os dois mundos.

3. Os Wachowski pervertem os símbolos da experiência concreta, tais como o Mito da Caverna, de Platão, e a salvação da morte através do sacrifício do amor, representado pela personagem Trinity (a Trindade Cristã?). Em Platão, o mito da caverna é o símbolo da periagoge, da conversão do mundo de sombras para o mundo da luz e o início da busca dentro da tensão entre os polos da realidade divina e humana. Neo não vai para o mundo da luz; ele caminha para dentro do mundo das sombras, acreditando que nelas está a verdadeira realidade. É o puro idealismo hegeliano; a tensão entre sombras e luz é substituída por sombras e mais sombras. Já a salvação da morte pelo sacrifício do amor - eixo central do Cristianismo - não implica em reverter a morte, mas sim em aceitar esta última - e Neo e Trinity fazem justamente o oposto, nos dois filmes. A contemplação amorosa - a de aceitar as coisas pelo o que elas são, com toda a sua limitação, e, por isso, não podemos mudar o limite final, que é a morte - foi para a Patagônia neste momento. Mas em "Matrix", tudo é bits e bytes, e everything can happen.

4.A cena com o Arquiteto é de uma sutileza diabólica, para não dizer que é puro gnosticismo. Está claro que o Arquiteto é o Demiurgo que criou o mundo e, insatisfeito, abandonou-o para deixar o homem sozinho. Os predestinados, no caso, seriam os responsavéis pela destruição deste mundo e pela criação de um outro, muito mais perfeito. Entretanto, as falhas continuam, e assim temos seis predestinados que já fizeram a mesma coisa, sempre observado pelos olhos atentos do Arquiteto. O satanismo está no fato de que o drama da salvação torna-se um eterno retorno no melhor estilo Nietzsche e não a ressurreição na eternidade. Além disso, descobrimos que o famoso Oráculo é um programa criado pelo Arquiteto para conhecer melhor a psyche humana, mas que se rebelou e luta contra o poder do Arquiteto. Adeus fé, esperança e caridade; adeus, graça divina; olá, perdição completa.

5. Os mais de cem agentes Smith que lutam com Neo no filme são uma referência direta à famosa declaração: "Meu nome é Legião". Alguém duvida que eles serão os futuros arquitetos das novas Matrixes?

6. Baudrillard não é o único pensador pós-moderno que inspirou os irmãos Wachowski. Há também um tal de Cornel West, negro, professor de Harvard e Princeton, que defende o socialismo tecnológico. Ele faz até uma ponta em "Reloaded", como um dos conselheiros de Zion. West foi acusado pelo reitor de Harvard de ser um professor muito preguiçoso, que ganhava uma fortuna e dizia bobagens. West ficou tristinho e foi para Princeton, acusando Harvard de "racista". Hummm... isto me cheira à affirmative action ou não ?

E eu poderia ir além, caros perplexos. Mas isto é tema para um ensaio gigantesco e acredito que tenho coisas mais importantes para fazer - como avisar as pessoas desta anomalia cinematográfica cara a cara, olho no olho, dente no dente. Repitindo Platão no Górgias: "É na guerra e na batalha que assim devemos proceder". Vocês deveriam fazer o mesmo por um simples motivo: é a consciência humana que está em jogo e ela é o que temos de mais precioso em nossas vidas e a única arma para enfrentar a realidade implacável, que sempre existirá, apesar das alucinações que nos impõem.


Martim | 9:30 AM |

. . .
Quinta-feira, Maio 22
A GERÊNCIA GERAL DO ESPÍRITO

Para quem não sabe, esta é uma das sentenças sábias do Uncle Olaf, que, aliás, inventou de ter um
blog, o que é ótimo, desde que ele pare com a política e escreva mais sobre filosofia, sua verdadeira missão.

Mas também me lembra esta teoria maluca do Alexandre Dugin, que todos deveriam ler por um simples motivo: é o plano do Cão para dominar o mundo.

Provas? Vejam "Matrix Reloaded" e saberão do que estou falando. Quem tiver um pingo de humanidade ficará aterrorizado com a cena do Arquiteto.

E leiam também esta entrevista maravilhosa sobre como os EUA (e o mundo) estão criando os novos terroristas de amanhã, inspirados na figura do Unabomber, cria da "cultura do desespero" de Harvard. Ah, e não deixem de ler este ensaio - fundamental para entender as razões psicopatológicas do que ocorrerá no futuro.

Para terminar, um auto-jabá: leiam Dugin, leiam a entrevista sobre o Unabomber, vejam "Matrix Reloaded" e comprovem se este senhor não estava certo ao descrever o triunfo da paranóia.

E um P.S. sobre P.S.: o bom de escrever num blog que poucos lêem é que, afinal de contas, escrevemos para nós mesmos porque nossos amigos são uma parte ou um reflexo de nossa alma.



Martim | 11:49 PM |

. . .
Domingo, Maio 11
WHAT IS REAL?, ASKED MORPHEUS, ou: Mamãe, eu quero viver numa bolha de plástico

Antes de tudo, caros perplexos, vamos ler este texto, publicado no Mais! do dia 11.05.03:

Nos poemas de "O Mundo como Idéia", Bruno Tolentino demonstra apurado domínio técnico, unindo o cômico à sacralidade solene

Gesto besta, sublime intangível

Alcir Pécora
especial para a Folha

O novo livro de poemas de Bruno Tolentino -"O Mundo como Idéia"- é precedido de dez ensaios que nada acrescentam ao livro. Contudo, mesmo perdida a centena inicial de páginas, restam "40 mil palavras em mais de 7.000 versos", nas contas do autor. O tema unificador do livro, de acordo com os ensaios, é o da resistência ao que chama de "malefícios" ou "sereias da Idéia", o "remanso especulativo" que pretende substituir-se às "perplexidades da condição mortal". Entram no remanso o "frio vazio do conceito", a "arte pela arte", a "marmorização moral do ser"; o "espírito de sistema"; o "idealismo alemão"; o "fascínio da abstração" e tudo que recusa o "mundo real", com sua "lição de trevas". Embora o livro filosofe a esse respeito o tempo todo, não consigo achar que o tema da Idéia como desastre da arte que, a partir do humanismo, se autonomiza como espírito e se afasta da vida mortal, seja o seu verdadeiro núcleo de interesse. Isso parece um déjà vu panofskiano, ainda que às avessas, para ser o verdadeiro núcleo de sua excelência. Longe dessas dicotomias populares entre "mente" e "coisa", "razão" e "vida", "ideal" e "real", são bem outros os atrativos poéticos dos poemas. O primeiro e mais básico deles é o domínio técnico dos meios da poesia demonstrado por Tolentino. Operando com formas fixas da tradição da poesia mais elegante e cerebral, como o soneto e a terça-rima, ele obtém um raro efeito de narração fluente, com palavras muitas vezes na ordem direta e sintaxe escorreita, ajustando-se mansamente à regularidade dos versos e ao padrão das rimas, sem prejuízo da variedade rítmica. O léxico é precioso, a matéria, erudita, e o tom, sentencioso, mas entrecortados por uma riqueza esquisita de registros que admite o ordinário, às vezes, na mesma frase que busca o sublime. As metáforas são abundantes e congruentes, o que, nele, tanto amplia o colorido do enunciado, quanto facilita a expansão perifrástica do tema. Tolentino possui, ainda, notável controle da disposição minuciosa e consequente dos argumentos. Emulando a poesia galante e reflexiva de modelo humanista, análoga da pintura que diz abominar, dá inequívocas mostras de "sprezzatura", isto é, de facilidade no fazer mais técnico e esforçado, o que relativiza ou nega o discurso de seu programa antinômico.

Artistas célebres

Um segundo aspecto que chama a atenção em todo o livro é a abundante referência a artistas célebres. Mas, se o tema do grande artista se liga facilmente ao da Idéia, determinado com base nos pintores do Renascimento toscano, Tolentino o pratica sobretudo no cruzamento da crônica esnobe do convívio intelectual mundano com o desempenho das tópicas da senectude e da imaginação da hora da morte. Daí acentuar a sua própria condição de discípulo ou aprendiz devotado entre os grandes, numa espécie de encenação do lugar retórico do "sexto entre eles", com que Dante celebrava, no Limbo, estar em companhia dos cinco maiores poetas da Antiguidade. Aqui parece inevitável certo efeito de deslumbramento do poeta de província acolhido nos salões dos grandes, no centro da cultura, mas os seus desdobramentos não são tão óbvios: do esnobismo do círculo iniciático até a sacralização do cânone, Tolentino constrói atentos e belos retratos morais. À maneira, agora, do aristocratismo rebelde do século 17 francês, a gravidade dos retratos é articulada a um anedotário que os tempera com um humor meio amalucado (como quando, em "Do Matinal Milagre", entre tantos exemplos, Elisabeth Bishop ouve "quisto" quando ele lhe perguntava por "Cristo"). E entra aqui um terceiro aspecto decisivo do livro: há algo de cômico na sacralidade solene de Tolentino, que está longe de ser casual. É mesmo o que opera alguns dos mais surpreendentes e eficazes efeitos de sua poesia. Em "Santa Reparata Deixa Florença", compõe uma prosopopéia da imagem da santa, que acusa a pouca fé dos esnobes da cidade; à imitação de um estilo pedestre, oposto à erudição afetada, a santa quase soa à Roberto Carlos ("eu voltei/ para esquecer ou para perdoar") e comove com uma espécie de idiotia singela.

"Sapo com ar de Kant"

Em "Travessias", narra uma viagem iniciática por um gelado deserto eslavo, na qual a forma de parábola evangélica se mescla com a graça esquisita das imagens tiradas de frases feitas: "Frio de pinguim"; "sorvete esquecido na brancura"; "miolo mole e delirante" etc. Mas o melhor do poema é a composição de uma cena sensacional em que, frente a frente com um corvo que apenas esperava a sua morte iminente de frio para atacá-lo, o poeta, desafiador, atira-lhe um sapato, enfiando os pés descalços no gelo.
A cena é hilária, sem deixar de ser o centro de seu propósito, digamos, edificante, pois sua versão peculiar da tentação de Cristo no deserto postula a sacralidade (à Blake) da imprudência num mundo oco e previsível.
Em "Dobrada à Moda do Morto", que parodia o poema de Pessoa, Tolentino fala de uma apoplexia sofrida num restaurante, durante a qual se incomoda menos com a ameaça da própria morte do que com o olhar que lhe deitara um sujeito esnobe, um "sapo com ar de Kant". Indigna-se contra o decreto oculto que permitia que vivesse o sapo enquanto morria o poeta. A conclusão da piada não é menos grave ou moral por conta disso: a experiência ensina que é preciso cair para entender a eleição divina, que há providência e benefício na dor -uma lição que, "bundão moribundo", não tinha percebido. Em "O Pêssego", após propor o sexo como participação do corpo na luz divina, afirma que frequenta o "templo da feira" e que a "fome da alma devora as coisas"; isso literalmente deveria explicar por que sente tesão por pêssegos, numa espécie de avesso da alucinação da carne.

Poesia e oração

Em "Lição de Modelagem", expõe a leitura que teria feito, numa biblioteca -de Oxford, claro-, ao longo da madrugada, do "Adversus Hereses", de santo Irineu. Explica que o santo combina o sentido da graça com o da omissão e da desconfiança, que ensinam o homem a aceitar a fraqueza, livrando-o da "ideologia do esforço" e do "terror de errar". O efeito de singeleza dos hexassílabos repletos de expressões feitas ("lhe cai outra telha na cabecinha oca"; "que a alma durma de touca"; "desconfiômetro"), combinado à erudição da matéria e à solenidade do lugar, resolve-se, enfim, na aplicação da tópica da "vanitas", isto é, do desengano da vaidade. Contra a soberba do intelecto e a presunção de autonomia do saber, a santidade se propõe como um "amolecer" da vontade diante do mistério divino, de tal modo que a atenta leitura do santo se transfigura numa espécie de milagre da fé. A poesia ajusta-se à oração. "Ao Divino Assassino" traz uma didascália a avisar que o poema foi escrito na igreja do "Sacre Coeur", em Paris, em momento próximo ao do acidente de elevador em que morreu a atriz Anecy Rocha. Nesse tipo de doutrina de ocasião, o procedimento de Tolentino se evidencia: ajoelhado diante do altar, o poeta rebela-se perante a crueldade do desígnio divino e duvida do amor de Cristo pela humanidade. A composição solene dessa perplexidade se casa então com expressões totalmente usuais ("arrancar a muque"; "fazer gato e sapato"; "suar sangue"), com inconfidências a respeito da soberba da família Rocha (Glauber é referido como "o irmãozinho") e, enfim, com a crônica dos últimos milagres do Sagrado Coração, contrapondo-os aos decretos de Deus "assassino" e "vândalo". Está aí, se não me engano -nesse habilíssimo jogo de contrastes entre o tom grave e o leviano, o arrebatamento dramático e o cômico, o estilo asiático e o pedestre-, a baliza formal da questão mística de Tolentino. Aí também se evidencia a aporia que lhe é mais própria: como reconhecer Deus num mundo de destruição? A resposta alude menos ao que é análogo essencial desse Deus do que àquilo que lhe acentua o paradoxo com o humano e desfaz as ilusões essenciais da analogia. A teologia é negativa: discurso que se produz como "inania verba", remédio que apenas evidencia a dor insolúvel.

Fotografia do poente
Último exemplo: em "Ampliações de um Ocaso em Súnion", compõe a memória banal de uma viagem de lua-de-mel com a ex-mulher, na qual pondera a dificuldade de fixar a imagem vivida no poema ("tirar o sol da caneta").
Contudo, em vez de fazer o previsível louvor do inefável, é tolerante com o desejo de um turista americano empenhado em fotografar o pôr-do-sol grego, que nunca estará em sua máquina. O poema deixa deduzir, então, que a luz mais bela não se dá na grandeza análoga e única do Sol daquele dia, mas no seu contraponto com a cegueira cômica do turista instalado um tanto estupidamente naquele esplendor. Não é, não, o Sol -ou o Deus encoberto nele- que assoma como maravilha no discurso do poema: é a risada do gesto besta em meio à sublimidade intangível. Isso o que verdadeiramente maravilha e arrebata, animando a pintura do discurso.

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Alcir Pécora é professor de literatura na Universidade Estadual de Campinas e autor de "Teatro do Sacramento" (Edusp/Editora da Unicamp) e "Rudimentos da Vida Coletiva" (ficção, Ateliê Editorial).


Bem, o negócio é o seguinte: quando um professor de literatura como Alcir Pécora, oriundo daquela província de Fidel Castro chamada Unicamp, afirma que os dez primeiros ensaios de "O Mundo Como Idéia", de Bruno Tolentino, não acrescentam em nada ao livro, é hora de começarmos a nos preocupar seriamente com a vida intelectual brasileira.

E aqui faço uma confissão: quem me conhece sabe muito bem que, para mim, "O Mundo Como Idéia" é o maior livro de poesia já publicado no Brasil nos últimos cinqüenta anos. Atualmente, tendo me imposto um auto-exílio de purificação de pensamento e de alma (afinal de contas, porcarias existem até mesmo no reino maravilhoso da internet e dos blogs, salvo raras
exceções), reescrevo o ensaio que publiquei no site "O Indivíduo" sobre o livro por um simples motivo: não se pode mais fazer literatura como antigamente no Brasil. Quem fôr ler "O Mundo Como Idéia" terá a sensação de ter se deparado com um divisor de águas. Esta conclusão não se deve somente à sua riqueza poética - inegável, uma vez que foi percebida até mesmo por Pécora em seu artigo de avestruz -, mas principalmente aos dez ensaios que o professor de literatura afirmou não serem necessários.

Está na cara que Alcir Pécora não teve a coragem de ler os dez ensaios direitinho. Tudo bem: concordo que ler Tolentino em prosa é difícil - ele é muito mais cristalino no verso - porque ele mistura, no meio de uma frase, citações em inglês, grego, francês e italiano. Isso, claro, pode dar a impressão de "pedantismo" - insinuação que Pécora não hesita em fazer no seu texto. Mas os dez ensaios são imprescindíveis, sim senhor, e por um único motivo: ninguém, na literatura brasileira, teve a ousadia de encarar de frente a questão do que é o real e o que é a percepção do real.

Claro que isto foi esboçado por Machado, Guimarães, Osman Lins, Drummond e outros. Entretanto, eles não tornaram a questão em um drama que se vive na carne - uma verdadeira obsessão. Muitos reclamarão que este é um problema periférico - termo comum nas províncias stalinistas de nossa terra papagalis. Pois digo-lhes o contrário, afirmando apenas um fato: se o problema do real é marginal, porque então, nos últimos dias, estamos vendo um ataque de publicidade em relação à seqüência do filme "Matrix" - aquele filme despirocado que todos acreditam ser uma ficção-científica metafísica quando, na verdade, é uma salada de referências gnósticas, temperada com epicurismo e racionalismo cartesiano? (E não sou eu quem afirmo isso, mas os próprios diretores do filme, como vemos nesta matéria do New York Times).

Apesar de todos os seus defeitos, o tema de "Matrix" é o do problema do real, que é o nó górdio da filosofia e da experiência religiosa por excelência. Qualquer filósofo que nos venha à mente pensou sobre isso: Platão, Aristóteles, Santo Tomás, Ortega Y Gasset, Eric Voegelin, Descartes, Kant e até aquele trapaceiro intelectual chamado Hegel. Portanto, ao ler tal sábia sentença de um Alcir Pécora - a de que justamente o questionamento que Tolentino faz sobre o problema do real é indiferente a um livro que teve quarenta anos de maturação-, não posso acreditar que se trate de algo sério, muito menos de um mero lapso linguístico que o Dr. Freud poderia catalogar. Trata-se mesmo de desonestidade intelectual e, o pior, desonestidade perante a própria vida. Pécora não só não leu os ensaios, como também os evitou deliberadamente. O motivo é simples: o moço não quer enfrentar o real, justamente porque acha que o tema é periférico, marginal. O que importa mesmo, na sua cabecinha de formalista barroco, é o molde poético e a experiência mística que fica dependente dele.

Ora, se ele lesse os dez ensaios introdutórios de "O Mundo Como Idéia", veria que é exatamente isso que Tolentino quer evitar - a vitória da forma sobre a experiência vivida. O poeta sabe que a arte não existe sem a forma - mas sabe também que ela não é tudo, que existe algo misterioso que deve ser exprimido e que fica além das palavras. A própria expressão "mundo-como-idéia" significa isso: a escolha que a consciência humana faz de não aceitar a imperfeição da vida, com sua finitude e, especialmente, decrepitude, e partir para as perfeições da forma e do sistema, que explicariam tim-por-tim o mistério da iniqüidade da condição humana. A questão do real - e a questão de como a arte, em suas variações de poesia e pintura, capta os movimentos de tensão do real - é essencial para nós entendermos nossa própria passagem na Terra. Todos nós vivemos entre "o mundo como tal" e "o mundo como Idéia". O que Tolentino fez foi criar símbolos precisos desta tensão constante na nossa alma, mas isso já foi feito por Platão, que criou o termo "metaxo" para representar a tensão entre o campo mundano e o campo divino na busca pelo sentido da vida. E, se quisermos ir além, o próprio símbolo da cruz mostra ao extremo as forças que puxam e repuxam a alma do homem.

O fato de que um produto pop como "Matrix" faça este mesmo questionamento, mas o deforme porque parte de premissas erradas - a de que a vida é um sonho criado por um Demiurgo que deseja somente o Poder - confirma que o problema do real não é, de modo algum, periférico ou marginal, mas primordial em nossa consciência e em nossa condição. Ninguém pode fugir a esta complexa relação de perguntas e respostas - que nem sempre serão explicadas. Mas somente aqui no Bananão um professor de literatura pode ter a arrogância de descartar isso como se não fosse importante. Quando um sujeito age dessa forma - e ele é integrante de uma elite que tem a responsabilidade de educar toda uma geração - é um sinal que este país não quer enfrentar a realidade. Prefere ficar num mundo de ilusão, escolhendo ideologias que só terminaram em morte - seja da direita ou da esquerda. Alcir Pécora joga no lixo a única atitude louvável de um ser humano - encarar o real e compreendê-lo com toda a dignidade. Coisa boa não pode sair disso.


Martim | 9:10 AM |

. . .
Segunda-feira, Abril 28
QUEM CONSEGUIR LER ISTO ATÉ O FINAL, CHORAR E MUDAR A VIDA (PARA MELHOR, POR FAVOR) GANHA UM CHOKITO

LIÇÃO DE MODELAGEM


A Affonso Arinos Filho


Old Library, All Souls,

Advento de oitenta,

oitenta e um; alguém

passa e me cumprimenta,

já não recordo bem

se deixa a sala ou entra:

estou pasmo entre o Nada

e o Espírito, o Nôus...

Já quase de madrugada,

lendo Santo Irineu

sinto-me estupefato!

Confronta-me um retrato

da humana imperfeição

tão terno e tão exato

que corta o coração,

pelo menos o meu:

músculo de um ofício

de doidos, o impropício

arremedo de Orfeu,

outra vez desconfio

da maneira tranqüila

com que balança, oscila

para-lá-para-cá,

paráfrase do fio-

de prumo- no vazio

“ entre o orgulho, a argamassa

e o sonho do edifício”

diz-nos Santo Irineu.

E diz mais! Diz que a graça,

essa isca do Cristo,

depende do exercício

de uma certa omissão

por parte da criatura,

que é preciso omitir-se

com mais desenvoltura...

Agora escutem isto:

como se não bastasse,

com uma tal novidade,

julgo entrever a face

do santo lá na altura

a vigiar-me e rir-se

com justa hilariedade

dessa alucinação!

Redebruço-me, sério,

sobre o velho volume

em tinta de Nankim,

com dobras de marfim

numa capa rugosa,

aspiro-lhe o perfume

de tempo, de mistério,

e recomeço a ler.

Admiro-lhe a prosa,

mas que me diz? Que fé,

caridade, esperança,

e o que ante o precipício

sustenha a alma de pé,

dependeriam até

de algo ainda mais difícil

de obter e manter...

- E isso agora, o que é?

desafio-o em voz alta,

e o santo não se priva

de chamar à alma “a altiva

e pobre soberana...”

Cheio de cortesia

e paciência, diz

que a coitada se engana,

que o que mais lhe faz falta

é uma desconfiança,

que a criatura é infeliz

porque não desconfia!



II



Sim, mas naturalmente

do erro, da heresia,

de que esta vida é triste

porque a carne é doente,

digo-lhe (ou penso) eu;

e aí Santo Irineu

ri-se outra vez e insiste

que não é isso, “ é quase...”

Já na próxima frase

insinua a noção

de que, afora o poltrão,

só o tolo resiste

a uma outra solução

bem mais simples: saber

viver, morrer um dia,

enfim dependeria

apenas de aceitar

de todo o coração

cada fraqueza humana

(como uma elocução

do drama da razão,

digo-me eu, da arcana,

doce e cotidiana

agonia da luz...).

Há o pânico da Cruz

que nos pesa no dorso

e não poupa ninguém,

é claro, mas também

há uma ideologia

que glorifica o esforço,

há um terror de errar,

especialmente o medo

de não acordar cedo!

Com a mais fina ironia

e toques de poesia,

aquela pena aos poucos

vai bordando entre os loucos

arroubos da criatura

uma noção mais leve,

mais doce, da aventura,

da alma, esse caroço

enfurnado no poço

do orgulho, entre as loucuras

da mente... O santo escreve

seu agudo compêndio

para apagar o incêndio

da heresia, mas ri-se

da suprema tolice

do ser, dessa premura

em aperfeiçoar,

não a alma: “ a carcaça

que aloja essa criança”

( diz ele) cujo lar

ela põe-se a arrumar

quase sempre demais,

até que o destrambelha

e lhe cai outra telha

na cabecinha oca;

que a alma durma de touca

pois muita ascese cansa,

diz e rediz o santo;

mais vale por enquanto

deixar a carne em paz,

não tentar encaixar

cada coisa em seu canto,

mas calmo, quieto, mudo,

pôr-se a desconfiar

de si mesmo e de tudo.



III



Desconfiar do vício

de viver como o ateu,

que ainda não entendeu

que a vida não é a soma

ou a multiplicação

do esforço pelo ato;

o ato de quem toma

vitaminas diárias

para fortalecer

pela musculação

as pobres alimárias

do arcabouço do ser...

Que não é nada disso

o bom homem me disse

numa sala vazia,

numa biblioteca

cheia de velhos lenhos

e belos pergaminhos:

disse-me que o caminho

de quem resiste aos demos,

mas assim mesmo peca

por conta dos extremos

em que a alma balança

e vai que nem peteca

no ar de não em não ;

que a melhor solução

para quem viva assim

é largar dos disfarces,

cair fora da dança

antes que chegue ao fim,

e enfim resignar-se

(quem diria!) a pecar

antes por omissão!

Omitir os enganos

do culto da razão,

que quer a perfeição

como carpintaria;

omitir-se de amar,

como um peso nos ombros,

as solenes vitórias

do asceticismo brutal

sobre os pobres escombros

da carne natural;

omitir-se das glórias

de alcançar, que não passam,

por isso, de vanglórias

entre a página breve

e a mão de quem a escreve

entre os vermes e as traças.

Ir omitindo tudo,

ir omitindo tanto,

o lamento, o acalento,

a elegia e o louvor,

que, omissa até o absurdo,

a alma torna-se leve

viração no arcabouço

do corpo, dessa argila

que miniatura abismos

no desenho dos ossos

e dos nervos, grafismos

de bom desenhador...



IV



Quanto à soma intranqüila

de tudo o que sobrar

do que não conseguimos aperfeiçoar

(não por falta de estímulo,

mas por desconfiar

da perene ambição

de sermos nós os nossos

melhores arquitetos),

tudo aquilo não passa

de indiferença à graça,

na pompa e na soberba

dos sonhos do intelecto

que se presume autônomo

e, agindo como tal, acaba por supor

em si mesmo o fiscal

do seu próprio labor,

da sua inania verba,

do seu louco metrônomo,

da sua fruta acerba,

ou seca como o erro

do orgulho no desterro

de uma biblioteca.

Em sua apologética,

seu humilde serviço

ao nosso entendimento,

o santo diz ( e como!)

que o espírito enfermiço

não tem desconfiômetro,

pois tudo, tudo isso

cabe num só momento;

que existe outra maneira

de conceber o fruto

do sonho que minuto

a minuto a alma tece;

que basta não pedir

nem de nós nem da mão

que nos vai esculpindo

segundo por segundo,

mais que a resignação

e o acaso do projeto,

geométrico e lindo,

mas cego, do intelecto

que pensa que conhece

sempre de antemão

resultado e intenção.

Basta não resistir

e deixar-se esculpir,

amolecendo os ângulos

e trocando os retângulos

da vontade, sincera

mas quase sempre errada,

pela entrega encantada,

serena, da matéria

à alma luzidia

e ao gesto do Escultor ,

ambos puro mistério.



V



Inverno ou não Inverno,

a luz das madrugadas

em Oxford é mais fria

do que os gelos eternos

e aquela aquele dia

era das mais geladas;

inclinei-me a cadeira

um pouco para trás,

contemplei os vitrais

que a deixavam passar,

depois a cumeeira,

e, como disse antes,

vi (ou sonhei que via)

Santo Irineu jogar

lá de cima os brilhantes

de uma luz que caía

vívida como a lava

sobre o último breu

de uma sala vazia.

Voltara a última página

de Adversus Hereses

e, já que delirava,

imaginei o bom,

o sutil Irineu

feito bispo em Lyon,

pregando aquela tese

ante uma diocese

repleta de pagãos.

Revi-lhe quase as mãos

afinando o instrumento

como a apurar-lhe o tom,

e pensei que, a um momento

de desfalecimento,

por conta de um cansaço

em tudo igual ao meu,

um dia aquele homem

rodeado de loucos

havia com certeza

abandonado a mesa

e, sacudindo os braços

pesados de saber,

quase que sem querer

esbarrara nos ocos,

nos vazios do ser;

vi-o diante de mim

como lia o seu nome

naquele pergaminho

e, olhando para os lados,

disse-me bem baixinho:

- “É uma bênção que a voz,

tão cheia de cuidados

de um venerável monge,

venha-nos de tão longe

consolar-nos a nós;

é doce ouvi-lo assim,

irônico, cansado,

metamorfoseado

em livro com desenhos

e capa de marfim,

mas tão pouco mudado

quase estes velhos lenhos

que ainda são como a árvore...”



VI



Pelo intenso fulgor

com que a luz se estendia

sobre as vigas e mármores,

suspeitei do outro lado

um dia ensolarado,

uma ocorrência rara

lá por aquelas bandas;

pensei ir à varanda

certificar-me, quis

erguer-me e não podia:

no brilho, no verniz

dos velhos assoalhos

a luz daquele instante

fazia como o orvalho,

cada gotinha clara

imitando um diamante

caía saltitante,

corria um tanto a esmo

e logo recobria

de uma tapeçaria

de ouro vivo até mesmo

o mais puro, o melhor

mármore de Carrara.

Bem um quarto de hora

olhei aquela sala,

o que lhe acontecia;

mesa, poltrona, estante,

eu sabia de cor

forma, textura e cor

de tudo ao meu redor,

e ainda assim agora

vivia uma das cenas

mais belas deste mundo:

olhava lá do fundo

toda a extensão da sala,

no entanto via apenas

uma espécie de opala

salpicar-se de prata,

de ouro branco, de amor...

- “A aurora é como a Lei

( pensei um tanto à toa),

frágil como a garoa,

é ao mesmo tempo o manto

e a coroa do Rei...”

Quando me levantei

e fui repor o santo

na posição exata

em que o havia encontrado,

deti-me junto à estante

e, a ponto de ir-me embora,

fiz o Sinal da Cruz

louvando aquela luz,

o fogo delicado

da mais suave ancila

entre a variedade

das que da eternidade

obram pelo Senhor.

E das dobras da mente

às espirais do umbigo

alguém falou comigo:

- “ A graça é como a aurora,

a cada dia invade

este lugar antigo

silenciosamente,

não como quem melhora

uma sala tranqüila,

como quem modifica

a grave majestade

de uma biblioteca

tornando-a ainda maior.

A alma, por pior

que se esforce, só peca

quando se petrifica...”




O mundo como Idéia --- Bruno Tolentino


Martim | 12:42 PM |

. . .
Sexta-feira, Abril 18
FELIZ PÁSCOA PARA VOCÊS, CAROS PERPLEXOS

E, antes de comerem seus ovinhos, vejam
isto.

E depois leiam isto.


Martim | 12:58 PM |

. . .
LEIAM, PENSEM, MEDITEM SOBRE O QUE ESTÁ ESCRITO ABAIXO

Cross the Green Mountain - Bob Dylan

I cross the green mountain, i slept by the stream
Heaven blazin' in my head, i dreamt a monstrous dream.
Somethin' came up out of the sea
Swept through the land of the rich and the free.

I look into the eyes of my merciful friend
And then i ask myself, is this the end?
Memories linger, sad yet sweet
And i think of the souls in heaven who will meet.

Altars are burnin' with flames far and wide
The foe has crossed over from the other side
They tip their caps from the top of the hill
You can feel them come, more brave blood to spill.

Along the dim Atlantic line
The ravaged land lies for miles behind
The light's coming forward and the streets are broad
All must yield to the avengin' God.

The world is old, the world is gray
Lessons of life can't be learned in a day.
I watch and i wait and i listen while i stand
To the music that comes from a far better land.

Close the eyes of our captain, peace may he know
His long night is done, the great leader is laid low.
He was ready to fall, he was quick to defend
Killed outright he was by his own men.

It's the last day's last hour of the last happy year
I feel that the unknown world is so near.
Pride will vanish and glory will rot
But virtue lives and cannot be forgot.

The bells of the evening have rung
There's blasphemy on every tongue.
Let 'em say that i walked in fair nature's light
And that i was loyal to truth and to right.

Serve God and be cheerful, look upward, beyond
Beyond the darkness of masks, the surprises of dawn.
In the deep green grasses of the blood stained wood
They never dreamed of surrenderin', they fell where they stood.

Stars fell over Alabama, i saw each star
You're walkin' in dreams, whoever you are.
Chilled are the skies, keen is the frost
The grounds froze hard and the morning is lost.

A letter to mother came today
Gun shot wound to the breast is what it did say.
But he'll be better soon, he's on a hospital bed
But he'll never be better, he's already dead.

I'm ten miles outside the city an' i'm lifted away
In an ancient light that is not of day
They were calm, they were blunt, we knew 'em all too well
We loved each other more than we ever dared to tell.


Martim | 8:31 AM |

. . .
Sexta-feira, Janeiro 17
As execuções impostas pelo Partido são um espetáculo à parte. Não pelos métodos usados corriqueiramente como torturas psicológicas, fuzilamentos em massa, pregação em ganchos e esquartejamentos, mas pela aglomeração de pessoas que assistem ao show. Elas sorriem e dão salvas espontâneas a cada instante de vida perdida; o sorriso que antes representava um bem, torna-se peripécia ardilosa. Suas expectativas são pelo próximo e daí por diante, alegram-se do rubor político enaltecido, o Chefe controla nossas mentes. Pow! Escuto mais tiros, enquanto ao lado do palco de espetáculos, estou saboreando uma sopa, juntamente com um apenas conhecido. Deliciosa por si.. Pow!
- Desculpe, mas não consigo degustar os petiscos.
- Pensas muito na morte, meu caro.
- Não é isso. Considerei uma coisa no relance anterior. Pow! Está vendo essa sopa?
- De letrinhas, por sinal.
- Sim, de letrinhas. Olha, tive um pensamento...
- Se for útil e que valha o piparote, diga sem maior relutância.
- Essa sopa... Não sei bem. Acredito que ela possui mais sabedoria que a humanidade.
- Ah.. e você vem com essa? Não sabe que perigo corre por pensar demais?
- Pelo menos ela tem uma finalidade: encher minha pança. Háhaha!
- Ligando os fatos, acredito... sim.. mas continua sendo uma sopa.
- Sopa... com certeza.. mas tem sentido..
- Bem, fizemos dela um sentido..Para nós? Nada além..
- Evidente..
- Deus ama pessoas como você..
- Agora você que está correndo perigo.. Olha! Estão se aproximando... Que sopa maravilhosa! Bem, já foram.. Então, como estava dizendo..
- Esqueça, nada a declarar...
- Não tenho nada para fazer hoje..Alguns escritores elogiaram o ócio? Bah! Há sensação mais enfadonha do que essa? O prazer é tudo. Ele dá talento.
- Claro... um tanto original..
- Não, digo talento.. apenas isso.. Ta-len-to, ouviu?
- Aham!
- Original? De onde você tirou essa palavra? Não a conhecia.
- Veio de relance, assim... de uma hora para outra..
- Por isso és tão avoado... Tira as idéias sem pensar...
- Elas surgem espontaneamente. Meu caro, preciso ir, o tempo clama...
- Até mais..
“Original? Háháha..”


Tiago | 5:12 PM |

. . .
Domingo, Janeiro 12
Triiilim..triiilim…(atendo ao telefone?). - Sim? Não é isso o que vocês estão pensando.
Não.. definitivamente. (difícil compreensão). Hum..? Hum..Hum! Pof!... tu..tu..tu.


Ah.. funcionário da supervisão. Um dos encarregados na vistoria diária, a inspeção observando nossa intimidade a procura de novas diferenças... a padronização é seguida à risca pela população, essa idéia do igual entrou para ficar mesmo. Veja como são as coisas... Eles querem igualar até pensamento. Isso não é possível! Bem, nós tentamos seguir a cartilha, mas... Há falha, a perfeição almejada parece-me algo bem artificial, mas desde que o sonho é aceito, torna-se rotina revirar a consciência e adequá-la a força. Nada mais justo, para eles. Aplicam a coerência e somos coagidos a aceita-la, enfim... Nós estamos de acordo, então...
Bela odiosa disse que “catou um surfista” no cais dos faróis.. Fico feliz por ela.. Alias, desde que esteja satisfeita e guarde nosso tempo, tudo bem! Nossa vida é bem aberta, um livro... ah.. há quanto tempo não pego um bom livro... os manuais do Partido são bons... muito bons por sinal, porém...
Alguns escritores são menosprezados.. esquecidos, foragidos na própria terra: acredito que falta entendimento. Entender, às vezes é tudo. Um pouco da compreensão e um amplo caminho abrindo.. Estamos satisfeitos com pouco. A prioridade é.... Bom, não existe nenhuma, contudo... a consciência coletiva diz que... então seguimos... alias, quem sou eu para refutar? Apenas um homem...Iria sofrer as pampas e passaria como um louco à procura do que? Está tudo disponível, até a minha odiosa que adora se dispor para a sociedade. Não.. não sou machista.. Adoro disposição, é dessa forma que me sustento, afinal, prazer é tudo.
Veja, o Sr Morlack, por exemplo... Ele adora a satisfação instantânea, um consumidor nato de pequenas preciosidades, na prática todo mundo sabe que ele é um “ bom vivente”. Suas encomendas são de primeira, ele age assim... porém na nossa frente , os outros, ele vem com o moralismo: “ A sociedade é tal! Esta errado! Aqui em casa não é lugar “. Só passar cinco minutos e lá está, Mr Morlack, no seu quarto, agraciando no colo uma boa pepita... Não entendo a natureza dele... Diz uma coisa e faz outra.. Quer ser diferente, mas faz igual, e aí? Coitado do Sr Morlack, até entendo... Mas ele tem suas razões...

Escuto uma música ou impressão?

“How bizarre..how bizarre… Ooh baby, (ooh baby)
It's making me crazy, (it's making me crazy)
Everytime I look around
Look around
Everytime I look around
Everytime I look around
Everytime I look around
It's in my face”

Tempos modernos… Ah…


Tiago | 5:57 PM |

. . .
O Centro de Convenções é ambiente dotado de refinamento – um palacete ígneo construído para a “satisfação das vontades”: compra-se o útil a bom preço . Nos corredores enevoados, pessoas sóbrias dirigem-se metodicamente ao fim, todavia não há uma só significação para todo aquele caminhar constante, simplesmente segue-se o convencionalismo regrado aos mínimos costumes: saiba onde fica seu espaço, caro amigo, e então será feliz. Uma postura límpida, política? A correta maneira de habituar-se.
Minha companhei...Desculpe! Bela odiosa está deslumbrante, resumindo uma estúpida maravilha e nada mais. Caminha ao meu lado e nem tanto assim. Diz palavras imprecisas e grita o bardo de mulher independente. – Não tenho problemas, sou mulher realizada! Repetia a si mesma como forma de alivio instantâneo, talvez pudesse esquecer os pequenos carunchos que nasceram em seu corpo depois do fast-food no cais dos faróis, no sábado. Eu sentia ainda alguns enjôos inoportunos, de certo pela bebida energética, a pastilha de bubble gum e a outra mulher, não tão apetitosa... Nas terras ermas paga-se por uma boa satisfação imediata, entretanto é difícil averiguar todos os defeitos presentes, sempre passa um...Nosso tributo pela dúvida. E não é que trombo com o grupo de apenas conhecidos, dois homens e uma mulher, os três com aquela dúvida no rosto que me levara à constatação anterior? Um dos homens toma a iniciava :
- Não está mais participando da festa no cais, o que acontece?
- Estou levemente enjoado... diferenças não apropriadas, eu sei
- Não entendo.
- Não sei, algo..
- Bom, tem agido de forma estranha. E quem é essa mulher aí do lado?
- Ah, minha companheira...
- Você anda estranho.... Ainda está em pé aquela viagem a terra baixa?
- Claro, está combinado...
- Está certo.
O grupo se afasta rapidamente com olhares de reprovação. Insinuo um sorriso amável a minha pequena, e só...
- Estou com pressa – disse a ela.
Saímos do Centro de Convenções....



Tiago | 5:50 PM |

. . .

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